CASO MILAGRES. “Uma de nossas equipes foi intimidada pelos PMs”, diz delegado

Milagres-CE-praça-Central

As investigações que se seguiram à ação desastrosa da Polícia Militar em Milagres foram alvo de pressão e situações de constrangimento envolvendo investigadores e testemunhas. Delegados defendem que o pedido de prisão preventiva dos militares, desconsiderado pelo MP, era “mais que necessário”

Todo caminho para apagar um rastro também deixa outros rastros e a Polícia Civil sabia disso. Um dos primeiros passos na investigação era refazer o caminho da Polícia Militar, senão na madrugada dos ataques, logo na manhã que sucedeu. Porque passar algumas horas do dia tentando apagar imagens das câmeras dos estabelecimentos comerciais era revelar que algo elas tinham a dizer. Não adiantaram as duas tentativas de destruir os arquivos com a formatação dos discos rígidos. A imagem do supermercado Burunganda seria reveladora: após todos os suspeitos em cena mortos, ou evadidos, três policiais atiraram sucessivamente de fuzil na direção de cinco reféns, “visivelmente indefesos”, feitos alvos a sete metros de distância.

As várias narrativas de alteração das cenas do crime, relatadas nesta série de reportagem meses antes do anúncio oficial, davam uma dimensão do que se supõe atrapalhar investigações. E esse é um dos grandes incômodos da Polícia Civil por o Ministério Público não ter confirmado o pedido de prisão preventiva de 15 PMs: estariam tentando atrapalhar as investigações.

Equipes de policiais civis integrantes da comissão de investigação do caso foram seguidas em diligências entre os municípios de Barro e Milagres, enquanto buscavam as testemunhas para prestarem depoimentos. “Eles se colocavam de forma muito próxima, ostensiva, isso acabava gerando uma situação intimidatória não só para equipe como para as testemunhas, com medo de falar”. Mas não teria se limitado a uma aproximação “desnecessária”.

De acordo com os investigadores, um homem tentou se passar por advogado de uma das testemunhas durante o depoimento dentro da Delegacia. Não era qualquer testemunha da madrugada dos ataques, mas José da Silva, o ‘Dé’, testemunha-chave, o homem que, com a esposa e a filha mais nova na porta de casa, recebeu a visita inesperada dos suspeitos do assalto Lucas Torquato e Rivaldo Azevedo Santos na manhã após os ataques. Integravam a quadrilha que tentou roubar os bancos, mas naquele momento eram dois homens se dizendo assaltados e que precisavam de um telefone para fazer ligação. Entre a chamada realizada e os dois se esconderem no quarto (um debaixo da cama), não se passaram mais que dez minutos. Ambos foram rendidos por militares do Comando Tático Rural (Cotar).

– Cadê o dinheiro, vagabundo? Cadê? – indagava um PM.

Lucas foi morto debaixo da cama. No depoimento dos militares, “houve troca de tiros e, no revide, o indivíduo acabou alvejado”.

Rivaldo, levado preso, foi retirado com algemas e “sem lesões”, mas apareceria morto minutos depois a caminho da cidade de Barro. Mais uma inverídica “troca de tiros”.

– Conhece ele?

– Nunca vi

‘Dé’ nunca viu nem pediu pelo homem que se dizia seu advogado na Delegacia e queria acessar os autos. Depois do episódio, a oitiva das testemunhas saiu de Milagres para o município de Brejo Santo.

*Conteúdo “Diário do Nordeste

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