Com tratamento, soropositivos superam preconceito e conquistam qualidade de vida

É a terceira internação da Vitória (nome fictício) que durante quinze dos 47 anos de vida faz tratamento para o HIV no Hospital São José, unidade de saúde da rede pública do Governo do Ceará. Como das outras vezes, a poltrona que fica ao lado do leito está sem acompanhante. Um vazio causado pelo preconceito e abandono de parentes e amigos.

“Ah, mas essa cadeira sem ninguém não é mais problema. Meus irmãos, primos de sangue me deixaram, mas eu fui acolhida por outros irmãos, primos e tios do coração. Eu cheguei em uma casa para pedir emprego de doméstica e quando eles souberam que eu tenho Aids começaram foi a cuidar de mim. Não estão aqui porque são ocupados demais, mas já disseram que vão me pegar quando eu tiver alta para nossas festas de fim de ano”, diz animada, a paciente que tem raras intercorrências porque segue corretamente o tratamento.

“Os medicamentos são muito eficazes, o acompanhamento ambulatorial e os exames são oferecidos regularmente. Se o paciente segue esse roteiro, a qualidade de vida é garantida com barreiras para infecções oportunistas e outros prejuízos à saúde. Assim, para uma pessoa que vive bem, desempenha atividades sociais e laborais mesmo tendo o vírus HIV, o preconceito não faz o menor sentido”, ressalta o infectologista do Hospital São José, Érico Arruda.

Nesses 30 anos de luta contra o HIV e aids, o preconceito e o medo ainda pesam nos ombros de alguns pacientes. Foi desafiando esse medo que a universitária Regina Colares (nome fictício), de 35 anos, realizou o sonho de ser mãe, mesmo vivendo com o HIV desde os 22 anos de idade. “Quando eu ouvi falar em transmissão vertical fiquei arrasada. Pensei que ia passar por essa vida sem ouvir alguém me chamar de mãe, sem sentir minha barriga crescer com um coraçãozinho batendo dentro. Até que comecei a perguntar e pedir ajuda à minha médica. Ela me orientou, me deu apoio e hoje eu tenho uma princesa linda”, comemora.

“Esse sonho é mais possível do que muitas mulheres que tem o vírus HIV pensam. A transmissão vertical, que é quando o bebê é infectado durante a gestação, só acontece se a mãe não seguir corretamente o tratamento com os medicamentos e acompanhamento pré-natal”, explica a infecto pediatra do HSJ, Gláucia Ferreira.

E o sonho da maternidade é o próximo passo da Cleciane Sousa, de 34 anos. “Encontrar meu grande amor, eu já encontrei. E se eu tivesse ido nessa onda de preconceito, tinha ficado sem o homem da minha vida”, declara a autônoma que poucos dias depois de conhecer e se apaixonar pelo Anderson Sousa, ficou sabendo do diagnóstico de HIV positivo.

“Ele começou a passar mal e me pediu para levá-lo até o Hospital São José. Lá eu descobri que ele estava com tuberculose e era soropositivo. Aí, ele olhou pra mim e perguntou se ficaria com ele no hospital, mesmo sabendo desse problema. Eu disse que ficava, mas só se ele casasse comigo quando saísse do hospital”. E depois de quase um mês de internação, trocaram votos, ficaram noivos e casarão no ano que vem. Mais um sonho que o HIV não impediu.

O Hospital São José, referência no tratamento de doenças infectocontagiosas, atende 6.653 pacientes que vivem com HIV/Aids. São pessoas da capital e do interior que têm acesso a medicamentos, exames, serviços de ambulatório com consultas agendadas, hospital dia, emergência 24 horas, acompanhamento psicológico e de serviço social.

Fonte: Assessoria de Comunicação do HSJ