Comitê internacional pede retomada de testes com a vacina CoronaVac no Brasil

Vacina Sinovac, chinesa, produzida em também em parceria com o Butantan, em São Paulo Foto: TINGSHU WANG / Reuters

O Comitê Internacional Independente, que analisa os estudos da vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, emitiu parecer pela retomada dos testes no Brasil. A documentação chegou à Anvisa às 17h de terça-feira.

A recomendação do comitê chegou após um duelo de versões sobre a interrupção dos testes, marcada por falhas de comunicação. Na segunda-feira, a Anvisa determinou a paralisação, o que abriu um embate com o Instituto Butantan, que considerou a decisão desacertada. Um dos fatores apontados é a a ausência de relação entre a vacina e a morte de um voluntário — que, diz a investigação da polícia, morreu por suicídio ou overdose.

A Anvisa assinalou, em entrevista coletiva ontem, que o parecer deveria ter sido enviado junto com a comunicação, feita pelo Butantan na última sexta-feira, do óbito, tecnicamente chamado de “evento adverso grave”. O parecer do comitê traz dados e datas que agora serão analisados pela Anvisa. Um grupo de técnicos começou a avaliar o documento em inglês.

O documento enviado pelo comitê internacional também é aguardado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, que também acompanha o desenvolvimento dos estudos e que é ligado ao Ministério da Saúde e que, diferentemente da Anvisa, não recomendou a suspensão dos estudos.

A primeira declaração pública do presidente Jair Bolsonaro após o anúncio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na noite de anteontem, de que suspendeu os testes da vacina CoronaVac, uma das mais promissoras do mundo para o combate à Covid-19, foi em tom de comemoração: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

A guerra do presidente não é contra a pandemia, mas contra um potencial adversário nas eleições de 2022: o governador de São Paulo, João Doria.

Presidente falou sobre o medo da população de pegar Covid-19: ‘Tem que deixar de ser um país de maricas’

Presidente falou sobre o medo da população de pegar Covid-19: ‘Tem que deixar de ser um país de maricas’ Foto: Pablo Jacob / Extra

O tucano aposta todas as fichas na vacina de origem chinesa, desenvolvida pelo laboratório Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Já o governo federal fechou acordou de compra com a AstraZeneca, que investe nas pesquisas do imunizante de Universidade de Oxford. Ambas estão na fase três dos ensaios clínicos, o último estágio para comprovar (ou não) a eficácia e a segurança da vacina.

Finalizados os estudos, qualquer vacina precisará do aval da Anvisa, órgão federal, para chegar à população. Uma pausa como a ocorrida agora nos testes da CoronaVac não impede a sua aprovação, mas pode atrasá-la.

Na manhã de ontem, Bolsonaro celebrou a pausa, fazendo menção à morte do voluntário que motivou a Anvisa a interromper os ensaios clínicos. Horas depois, porém, se confirmaria que o óbito, por suicídio, não teve nenhuma relação com a CoronaVac.

“Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu.

Mais tarde, o presidente retomou discurso feito desde a chegada da pandemia ao país, minimizando os riscos do novo coronavírus:

— Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás — disse, em evento no Palácio do Planalto, acrescentando: — Temos que enfrentar (de) peito aberto, lutar. Que geração é essa nossa? A geração minha, do Milton (Ribeiro, ministro da Educação), é diferente, 60 anos de idade. A geração hoje em dia é toddynho, nutella, zap. É uma realidade.

A Covid-19 matou, até ontem, 162.842 brasileiros, segundo dados das secretarias estaduais de Saúde, compilados pelo consórcio de veículos de imprensa. Os infectados já passam de 5,7 milhões. O presidente chamou ontem a pandemia de “superdimensionada”.

STF cobra explicação

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu um prazo de 48 horas para a Anvisa prestar informações sobre os critérios utilizados na análise dos estudos e experimentos da CoronaVac. Ele também mandou a agência informar o estágio de aprovação dessa e das demais vacinas contra a doença sendo testadas no Brasil.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), escreveu em suas redes sociais que, “entre pólvora, maricas e o risco à hiperinflação, temos mais de 160 mil mortos no país, uma economia frágil e um estado às escuras”. E continuou: “Em nome da Câmara dos Deputados, reafirmo o nosso compromisso com a vacina, a independência dos órgãos reguladores e com a responsabilidade fiscal”.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou requerimento para que o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, prestem esclarecimentos na comissão especial que acompanha ações de combate ao novo coronavírus no país. Para Randolfe, a Anvisa pode ter sido instrumentalizada para cumprir “caprichos” de Bolsonaro.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, também se manifestou. Em suas redes sociais, afirmou que a politização da vacina não vai curar a doença: “É lamentável o que está acontecendo: politização da vacina que nos livrará do coronavírus. A decência e a saúde exigem prato limpo: dado o que disse o Butantan, que a Avisa se explique. E logo. Revela a motivação política. É o exterminador do futuro.”

Para a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, o “estrago” causado pela fala de Bolsonaro é “difícil de mensurar”.

— Ele gera desinformação sobre vacinas como um todo. Com isso, a população fica desnorteada e pode começar a duvidar do processo cientifico por trás do desenvolvimento das vacinas.

O médico José David Urbaez, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que a interrupção dos ensaios clínicos faz parte do “roteiro de todo teste de vacina e medicamento, não tem nada de estranho ou conspiratório”. O modo como o episódio transcorreu, porém, é indício de uso político da situação:

— Isso gera o pior que você pode gerar para uma vacina, que é a desconfiança.

Anvisa: ‘informações insuficientes’

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse ontem que a decisão da Anvisa causou indignação.

— Do ponto de vista clínico do caso, é impossível que haja relacionamento do evento com a vacina. Essa definição (impossível) encerra a discussão — salientou.

O diretor disse ainda que a decisão da agência causou “incerteza” e “medo” nas pessoas.

— Causaram incerteza, medo nas pessoas, fomentaram um ambiente que já não estava propício devido ao fato de essa vacina ser feita em associação com a China — declarou.

O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barras Torres, por sua vez, também chamou uma coletiva e disse que as informações repassadas pelo Instituto Butantan foram “insuficientes e incompletas” e que, por isso, a agência decidiu pela suspensão dos estudos.

— As informações veiculadas ontem foram consideradas, pela área técnica, insuficientes, incompletas, para que ontem fosse possível, de posse delas, continuar permitindo o desenvolvimento vacinal — disse o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barras Torres.

A diretora da Anvisa responsável pela área de vacinas, Alessandra Bastos, reforçou que a decisão foi técnica e seguiu protocolos internacionais:

— Gostaria que ficasse muito claro: diante de um efeito adverso grave não esperado, suspende o estudo clínico.

*Extra Online

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