Moradores de Crato recebem pela 1ª vez treinamento para evitar tragédia no entorno do Rio Granjeiro

Marcado por deslizamentos de terra e enchentes, o município de Crato prepara população para agir em casos de desastres.Foto: Antonio Rodrigues/SVM

Os moradores do entorno do canal do Rio Granjeiro, em Crato, receberam pela primeira vez neste ano um treinamento para deixar a área de forma urgente em caso de uma eventual tragédia, como alagamento ou deslizamento de terra.

A população local presencia todos os anos, durante o período chuvoso, alagamento e, em algumas situações, rompimento de parte da estrutura do canal. Em abril de 2019, uma chuva de 130 milímetros fez a água transbordar, derrubando parte da Encosta do Seminário, destruindo uma casa e interditando outros 30 imóveis.

A simulação testou e avaliou a capacidade de reação da população e órgãos públicos em casos de emergência. A atividade também contou com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o Corpo de Bombeiros e a Guarda Civil Municipal.

Demora na comunicação

Segundo a coordenadora da Defesa Civil de Crato, Josemeire Melo, a avaliação foi positiva, já que o tempo de resposta foi rápido, após o sinal de alerta. Em 45 minutos, as ações de evacuação foram concluídas.

“A retirada das famílias foi bem mais rápida”, conta. Por outro lado, ela sentiu que pode haver um problema de comunicação por conta das operadoras de celular. “Por ligação, não houve uma comunicação rápida. Mas já conversamos com o Ministério Público para solucionar”, pondera.

Durante chuva em 2019, uma casa foi destruída e 30 imóveis ficaram interditados em Crato — Foto: Antônio Rodrigues/SVM

Durante chuva em 2019, uma casa foi destruída e 30 imóveis ficaram interditados em Crato — Foto: Antônio Rodrigues/SVM

Em caso de desastre, Josemeire enfatiza que a população deve ser a primeira a ajudar. Para isso, três pessoas da comunidade Sagrada Família, próximas ao canal e à Encosta do Seminário, foram capacitadas para receber o alerta, acionar as pessoas e conduzirem até o ponto de encontro.

Há duas semanas, uma equipe de Recife (PE) realizou um curso com os agentes da Defesa Civil e organizaram a simulação. “Um novo simulado, retirando a população, deve acontecer, mas ainda não tem data marcada”, antecipa Josemeire.

O canal do Rio Granjeiro conta com um sistema de alerta ligado ao Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que repassa para Brasília (DF) e à Defesa Civil do Estado. Este, em caso de risco de desastre, aciona a Defesa Civil do município. “Recebemos também alertas de chuvas com ventos fortes”, completa.

Histórico de acidentes

O canal do Rio Granjeiro é a maior preocupação dos moradores de Crato. Um dos episódios mais marcantes aconteceu em 28 de janeiro de 2011, quando uma precipitação de 162 milímetros deixou famílias desabrigadas, arrastou carros e causou um prejuízo milionário para o comércio. Já no ano passado, a estrutura transbordou duas vezes e parte de sua parede foi destruída.

Defesa Civil avalia como positivo o treinamento de moradores do entorno de canal em Crato — Foto: Antonio Rodrigues/SVM

Defesa Civil avalia como positivo o treinamento de moradores do entorno de canal em Crato — Foto: Antonio Rodrigues/SVM

“Ninguém dorme quando transborda. A gente fica lá até baixar [a água] e volta para casa”, conta a aposentada Maria Eliziê de Melo. Nas precipitações mais fortes, ela afirma que a correnteza arrasta pedras e árvores inteiras, canal abaixo. “E não tem nenhuma proteção, também. Um ônibus quase caiu. Um bêbado, também. Este é o maior perigo do Crato”, acredita.

Com o recorrente transbordamento, praticamente todas as lojas do Centro possuem calçadas altas, algumas chegam a ficar acima de um metro. Isso ainda é insuficiente. “A lama entra lá dentro. A pessoa fica três dias sem vender, porque aqui não anda ninguém. Não consegue ver nem o meio fio”, conta o comerciante Antônio Martins, que há 30 anos revende bebidas na margem do canal.

Após a última quadra invernosa, a Secretaria de Infraestrutura de Crato iniciou a reconstrução do canal, já que parte da parede entrou em colapso pela erosão. Ao todo, foram gastos R$ 1,49 milhão, que contemplou também a reestruturação da Avenida José Alves de Figueiredo. Ainda foi feito o desassoreamento, em setembro, e retirada do material que desabou.

Por prevenção, a Secretaria também assinou um contrato de seis meses, por R$ 1,6 milhão, para a restauração de vias e também do canal caso haja algum dano que possa ser restaurado. O serviço pode ser prorrogado por mais seis meses. Até agora, não foi necessária nenhuma intervenção a estrutura tem suportado as primeiras chuvas do ano.

Solução

A Universidade Federal do Cariri (UFCA), através de algumas pesquisas, tem observado uma diminuição florestal na área superior da Bacia do Rio Granjeiro, através de um estudo de uso e ocupação do solo. Segundo o professor Paulo Roberto Lacerda, doutor em Recursos Hídricos, isso tem contribuído para impermeabilização e, consequentemente, aumentado o fluxo de água que corre para o canal

“O sistema hidráulico está funcionando de forma incorreta. Na primeira parte, a água escoa de forma muito rápida, o que chamamos de escoamento supercritico, em alta velocidade. Na segunda metade, existe uma mudança de regime hidráulico, que provoca dissipação da energia, provocando a destruição do canal e a elevação da água. Nisso, ocorre a inundação”, detalha o pesquisador.

O professor Paulo, junto com outros colegas da UFCA, apresentou alternativas para serem discutidas, como a construção de estruturas de amortecimento para diminuir a velocidade da água ou o transporte de parte deste recurso hídrico para o Rio Batateira, que também corta o município. Contudo, alerta que apenas uma delas ou as duas, não são suficientes para solucionar o problema. “É parte de uma solução. A combinação delas possibilita amenizar. Tem que incluir medidas não estruturais, como conter um pouco a impermeabilização”, justifica.

G1 CE

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