Obstáculos nas calçadas e ruas impedem mobilidade

agosto 12, 2017 12:240 comentários

Conteúdo do Diário do Nordeste – Foto: André Costa

Para os cadeirantes, sair de casa para realizar um simples passeio é um martírio, por causa das barreiras colocadas indevidamente em calçadas e vias da cidade
Juazeiro do Norte. A rotina de Veríssimo Santos, 56, começa cedo. Junto aos primeiros raios de sol, ele sai de sua residência, no bairro Salesiano, neste Município, em direção à rádio Juazeiro FM, onde comanda um programa musical de 5h às 7h. Após o trabalho, atravessa duas ruas no bairro Romeirão, pega um coletivo e segue até o mercado central, no Centro da cidade, onde desenvolve outras atividades até o fim da tarde. A rotina seria comum a tantos outros trabalhadores não fosse a deficiência visual de Veríssimo.

> Há ainda muito a se fazer, diz entidade

“Vim ao mundo sem o globo ocular”, pontua. Veríssimo nasceu em Santa Luzia do Sabugi, no Estado de Pernambuco e, aos 22 anos, passou a morar em Juazeiro. Após mais de três décadas residindo na segunda maior cidade do Estado, Veríssimo conta que conhece “cada canto da cidade, inclusive os milhares de obstáculos nas ruas”. Ele elenca que as principais dificuldades para o deficiente, de um modo geral, são as calçadas desniveladas e sem acesso para cadeirante, paradas de ônibus sem acessibilidade e, sobretudo, “a falta de educação das pessoas”. “É cultural”, lamenta ele.

Sem sinalização sonora nas paradas de ônibus, o radialista, que também é compositor e músico, conforme faz questão de ressaltar, utiliza-se de sua experiência para saber qual coletivo pegar. “Eu conheço pelo barulho do motor”, diz. No entanto, reconhece que nem todos possuem tal sensibilidade auditiva.

“Eu consigo me locomover de um canto para o outro pois tenho muita experiência. Nasci com essa deficiência mas desde os nove anos de idade caminho pelas ruas, justamente por não querer ser limitado. Mas, para os outros deficientes, que não possuem o mesmo conhecimento, é um desafio diário sair pelas ruas da cidade”, critica.

“Pegar ônibus é o de menos. Desafio grande é trafegar pelas calçadas”, conta, entre um obstáculo e outro vencido nas ruas do Centro. “As calçadas são horríveis. Além disso, falta educação nas pessoas. Muitos estacionam carros, motos e os comerciantes ainda montam barraquinhas nas calçadas. Fica difícil”, acrescenta. A dura realidade não é exclusividade apenas dos deficientes visuais.

Valéria Oliveira tem 33 anos. Nasceu com uma distrofia muscular. Sempre cadeirante, ela conta com os cuidados da Maria do Socorro Pereira para “passear pelo bairro”. Sem o auxílio, no entanto, seria difícil. “Não tem condição. Um cadeirante não consegue andar sozinho na cidade. Só se tiver muita força, para conseguir subir essas calçadas de Juazeiro”, critica Maria.

Mudanças estão próximas, afirma a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) de Juazeiro. Segundo a pasta, todas as residências e comércios que estiverem obstruindo as calçadas, sejam com piquetes ou grandes rampas serão notificadas. Após as notificações, o proprietário do imóvel terá de dois a três dias para se apresentar à Seinfra e receber direcionamentos de como proceder.

Caso não haja comparecimento no prazo estabelecido, será gerada multa de R$ 300. As remoções têm como objetivo, segundo a Seinfra, promover uma melhor acessibilidade nas calçadas de maior fluxo em Juazeiro .

Apesar dos desafios diários em que os deficientes são submetidos, Juazeiro do Norte aparece entre as 50 melhores posicionadas no ranking Connected Smart Cities, que avaliou os municípios que apresentam melhor mobilidade urbana e com acessibilidade. Pela primeira vez, desde que o estudo foi criado, o Ceará emplacou três cidades dentre as 50 melhores. Além de Juazeiro (37ª), Crato (48ª) e Fortaleza – que passou da décima para a sexta posição – figuraram na lista da Urban Systems, empresa responsável por qualificar as cidades.

Para avaliar as cidades, oito critérios foram levados em consideração. Proporção entre ônibus e automóveis; idade média da frota dos meios de transporte públicos; quantidade de ônibus por habitante; variedade dos meios de transporte; extensão de ciclovias; rampas para cadeirantes (acessibilidade); número de voos semanais (conectividade com outras cidades); e transporte rodoviário.

A explicação para o surgimento dos dois municípios interioranos na lista é justamente a contemplação de vários destes critérios avaliados.

Juazeiro do Norte é conhecida por ser equidistante de várias capitais do Nordeste. A localização privilegiada, no entanto, seria subutilizada caso o município não tivesse bom equipamento aeroportuário. As melhorias, entretanto, estão por vir. Foi o que garantiu o ministro dos Transportes, Portos e Aviação Civil, Maurício Quintella Malta Lessa. Ainda este ano, o Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes passará por reforma. Serão mais de R$ 30 milhões investidos em duas etapas.

Liberado

A primeira delas, com obras previstas para serem iniciadas já no mês outubro, terá investimento de R$ 2,7 mi. Serão reforçadas as pistas de pouso e decolagem e as duas taxiways – faixas que permitem o taxiamento dos aviões. A partir de março, com o fim das obras, o aeroporto estará liberado para receber aeronaves de grande porte e, com todas essas melhorias, o PCN (Pavement Classification Number), que indica a resistência do pavimento, hoje classificado com PCN 32, passará para o PCN 46. Desta forma, a expectativa é que a quantidade de voos diários tenha considerável aumento já a partir do primeiro semestre do ano seguinte.

VLT do Cariri

Para além da baixa acessibilidade ao deficiente, cidades do Cariri começam a expandir as opções de locomoção. Na região, transitar entre um destino e outro não significa necessariamente a utilização de carro, ônibus ou taxi. As opções vão além. Em junho, voltou a funcionar, após quase sete meses de inatividade, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) do Cariri, popularmente chamado de Metrô do Cariri. A operação havia sido suspensa em novembro passado para viabilizar a continuidade das obras da Avenida do Contorno, projeto executado pela Secretaria das Cidades, cujo objetivo é desafogar o trânsito da Avenida Padre Cícero, rodovia estadual que liga o Cariri à região Centro-Sul do Estado.

O Anel Viário, como também é chamado o projeto do Governo do Estado, cujo investimento é de R$ 17 milhões, conta com a construção de viadutos, vias em duas mãos, ciclovia, acostamento, canteiros central e, ao todo, terá mais de 14 km de extensão. A obra segue em fase de conclusão e deve ficar pronta até o fim deste ano. Outra obra que está prevista para ser entregue até dezembro próximo é a Ciclovia Cariri. Serão mais de 17km, que unirá as cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. O equipamento começou a ser construído no ano passado e terá investimento total de R$ 2,6 milhões.

Adequação

Em Juazeiro, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura, o Município já dispõe de 4.631,52 metros de ciclofaixas e 27.696,33 metros de ciclovias em toda a cidade, o que corresponde a um total de 32,33 km destinados aos ciclistas. Já em Crato, segundo o secretario Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Territorial, Francisco de Brito Lima Junior, apesar de o Município ainda não dispor de ciclofaixas ou ciclovias, “já se tem análise de que é possível adequar boa parte das principais vias de acesso”. Conforme acrescenta, todas as novas principais vias já são planejadas com esse equipamento.

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