Rafael Correa deixa o Equador em guerra com seu sucessor

julho 13, 2017 08:490 comentários

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QUITO — “Não me digam que os recuos são mudança de estilo” se queixou com amargura o ex-presidente equatoriano Rafael Correa ao se despedir de seus seguidores no aeroporto de Quito, fazendo referência a suas diferenças com o governo de Lenin Moreno, que pertence a seu próprio partido e assumiu o posto há apenas um mês e meio. Cumprindo uma de suas promessa de campanha, Correa chegou ontem a Bélgica, país de origem de sua esposa, para radicar-se na Europa e, segundo ele, para que “os equatorianos descansem de mim e eu um pouco do meu país”.

Desde que assumiu o novo governo em 24 de maio, Moreno nunca se comportou como um “governo títere”, como se havia especulado antes de sua posse, e Correa perdeu o controle do seu projeto nacional chamado “revolução cidadã”. No entanto, o ex-presidente não ficou calado. Através de sua coluna no jornal El Telégrafo e através de suas contas nas redes sociais, respondeu a casa medida “dissidente” da nova administração.

Quando Moreno formou uma comissão para investigar a corrupção que trabalhará com a ajuda da ONU, o ex chefe de Estado falou de um “recuo” em relação a soberania equatoriana. Posteriormente, Moreno ordenou a todo o gabinete que agende reuniões periódicas com os meios de comunicação, uma decisão que Correa qualificou de “erro gravíssimo” e uma “submissão aos poderes da má imprensa”.

Em outro desvio de percurso, Moreno ordenou revogar uma decisão do governo anterior e entregar a grupos indígenas uma disputada sede da capital equatoriana, medida definida como “desleal e medíocre” por ex-presidente.

— Moreno nunca foi o candidato preferido de Correa. Só aceitou que encabeçasse a chapa porque se saía muito melhor nas pesquisas do que o vice-presidente Jorge Glas — explicou ao La Nacion o analista equatoriano Simón Pachano, da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Flacso).

Para Pachano, o que mais separa Moreno de Correa, no âmbito público, é sua proximidade com a imprensa e os grupos indígenas. Porém, a divergência mais forte se daria na política interna do governo.

— É forte a tensão por suas medidas de aprofundar as investigações sobre casos de corrupção do governo anterior — disse o analista.

Muitos congressitas da oposição já anunciaram que convocarão o vice-presidente Glas para que dê explicações sobre sua relação com o caso Odebrecht, um dos temas mais controversos em que está envolvido o governo de Correa.

Ao saber da chegada de Correa Bélgica, o presidente aproveitou para desmentir uma famosa frase do antecessor — economista graduado na Europa e EUA — que dizia ter deixado “a mesa servida” na questão econômica para o próximo governo. Moreno disse que na verdade “não há essa tal mesa servida”.

— Creio que poderia ter sido um pouco mais prudente no momento de deixar contas em melhores condições — disse o presidente do Equador.

Para José Hidalgo Pallares, diretor da Corporação de Estudos para o Desenvolvimento (Cordes), a etapa mais difícil dos confrontos entre Moreno e Corre chegará quando começar o inevitável plano de ajuste.

— Será tarefa de Moreno saber explicar até que ponto o governo anterior é responsável por deixar um estado arruinado economicamente — observou Pallares.

Neste sentido, o analista considerou que as aproximações que o presidente está tendo com outros líderes de oposição e com a imprensa, podem favorecer uma maior compreensão e respaldo das medidas de ajuste. Em relação ao futuro de Correa, Hidalgo Pallares considerou “pouco provável” que depois de uma década no poder, o ex-presidente de 54 anos “se resigne em ser palestrante em universidades europeias”.

— Seguramente Correa vai querer regressar como candidato em 2021, e para isso precisa preparar o terreno —concluiu.

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