Remissão de HIV em paciente anima especialistas que lutam para conter vírus

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Segundo caso mundial, apelidado de Paciente de Londres, não apresenta sinais do HIV no corpo há 18 meses, após ser submetido a um transplante de medula óssea. Cientistas acreditam que o resultado abre janela para novas estratégias de tratamento

O anúncio da remissão do HIV em um paciente submetido a um transplante de células-tronco foi recebido com entusiasmo pela comunidade científica, que persegue, há quatro décadas, um tratamento definitivo para a síndrome da imunodeficiência humana (Aids). Na segunda-feira à noite, foi antecipado o resultado de um trabalho apresentado ontem por pesquisadores europeus que relataram, na Conferência de Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Seattle, o segundo caso mundial de uma pessoa que ficou livre do vírus após receber uma nova medula óssea. Os autores, que também publicaram um artigo sobre a pesquisa na revista Nature, insistem, porém, que não se trata da cura da Aids.

Javier Martínez-Picado, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados, destacou ontem que o resultado do estudo mostra que o primeiro caso de remissão do HIV a longo prazo, revelado há mais de 10 anos, não foi uma mera eventualidade, como se chegou a insinuar. Na ocasião, cientistas reportaram que o norte-americano Timothy Brown, então conhecido como Paciente de Berlim, ficou livre do vírus após passar por um transplante de medula óssea para tratar de uma leucemia. “Esse novo relato demonstra que o Paciente de Berlim não foi um caso isolado e que é possível alcançar a remissão total do HIV.”

O estudo divulgado ontem se refere a outro homem, apelidado de Paciente de Londres, que também era HIV positivo e, em 2012, foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer linfático. Ele fez quimioterapia, mas os resultados não foram bons, e os médicos decidiram por um transplante de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que dão origem aos glóbulos vermelhos e às células do sistema imunológico, entre outros. O doador da medula óssea foi escolhido por uma característica genética que compartilha com cerca de 1% da população mundial. Ele carrega uma mutação em um gene que faz com que o HIV não consiga invadir as células saudáveis e, assim, se espalhar pelo organismo. O doador da medula do Paciente de Berlim também portava essa variante genética.
Reação decisiva

O tratamento a que o Paciente de Londres se submeteu, porém, foi menos agressivo. Ele fez quimioterapia, mas não passou pela radiação, como no caso de Timothy Brown. Em ambos, houve uma síndrome transitória do enxerto contra o hospedeiro, uma situação normal depois de transplantes, quando as células do doador atacam as do receptor. O que poderia ser um problema parece ter sido vantajoso: as células resistentes ao HIV tomaram conta do organismo dos pacientes, destruindo aquelas sujeitas à infecção. O Paciente de Londres parou com a terapia antirretroviral e, 18 meses depois da interrupção dos medicamentos, continua livre do vírus.

“Ainda assim, não queremos falar sobre cura ainda. Mas a verdade é que um ano sem detecção viral é algo que não víamos desde o Paciente de Berlim. Então, nossa visão é muito otimista”, observa Javier Martínez-Picado. Submeter pacientes HIV positivo a um procedimento arriscado como o transplante de medula, contudo, não é uma opção de tratamento, destacam os autores do artigo, assim como especialistas não envolvidos na pesquisa. “Esse segundo, o ‘Paciente de Londres’, cujo HIV foi controlado após um transplante de medula óssea é encorajador. Mas, no momento, o procedimento ainda carrega muito risco para ser usado em pacientes que, de outro modo, estão bem”, diz Graham Cooke, professor do Imperial College Londres, que não participou do estudo.

A avaliação é que, caso se confirme a remissão a longo prazo, abre-se uma nova janela de pesquisas, que visem reproduzir o efeito do gene mutante no organismo dos pacientes. “O segundo caso reforça a ideia de que é possível encontrar uma cura”, disse à agência France-Presse (AFP) de Notícias Sharon R Lewin, diretora do Instituto Doherty Peter para Infecções e Imunidade da Universidade de Melbourne. “Um transplante de medula óssea como uma cura não é viável. Mas podemos tentar determinar qual parte do transplante fez a diferença e permitiu que esse homem parasse de tomar seus medicamentos antirretrovirais.”

Condição rara permite um passo adiante
A superfície das células são repletas de moléculas chamadas receptoras. Elas são importantes para permitir a ligação de substâncias essenciais para o metabolismo celular, como neurotransmissores e hormônios. Considerado um vírus extremamente inteligente, o HIV tira vantagem desse mecanismo e se une aos receptores da célula CD4, do sistema imunológico (Veja infográfico). O alvo predileto do vírus é um receptor produzido pelo gene CCR5. Como o HIV se encaixa perfeitamente a ele, a célula não entende que se trata de um invasor e deixa o micro-organismo entrar.

Uma vez no núcleo celular, o vírus usa o maquinário da CD4 para inserir seu material genético e, então, passa a se reproduzir, além de matar as defesas do organismo. Os doadores das medulas transplantadas nos pacientes de Berlim e de Londres tinham uma rara condição, presente em 1% da população mundial: uma variante do gene CCR5, chamada delta32, que não produz o receptor CCR5. Assim, o HIV não consegue entrar na célula e, consequentemente, infectá-la.

Tanto o Paciente de Londres quanto o de Berlim foram beneficiados por fazerem parte do programa IciStem, uma colaboração internacional para guiar e investigar o potencial de cura do HIV por meio do transplante de medula óssea. “Embora os doadores delta32 encontrem-se, primariamente, entre pessoas caucasianas, a remissão em longo prazo do Paciente de Londres nos dá importantes informações sobre os mecanismos potenciais de cura e devem abastecer o desenvolvimento de estratégias que possam ser aplicadas mais amplamente”, diz Annemarie Wensing, pesquisadora do IciStem. Ela informa que há mais de 22 mil doadores com a rara mutação delta32 identificados no programa.

“Para ser claro, essa não é uma opção ainda para pessoas com HIV, mas é um grande passo adiante. Isso é incrivelmente empolgante, à medida que aumenta nossa compreensão da complexa imunologia do HIV, e deve nos colocar mais perto da cura”, afirma François Venter, vice-diretor executivo do programa. “O paciente de Londres é o segundo homem HIV positivo considerado em remissão prolongada após um transplante de medula óssea de um doador CCR5 negativo. Isso representa um momento crítico na nossa busca por uma cura do HIV. Reafirma nossa crença de que, um dia será, possível curar a infecção por HIV com uma estratégia segura, custo-efetiva e facilmente acessível”, acredita Maria Papathanasopoulos, pesquisadora da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.
Entenda como ocorreu a remissão do HIV no paciente de Londres
1. O HIV infecta o organismo entrando nas células CD4, do sistema imunológico. Uma vez no interior, ele usa o maquinário da própria célula para replicar seu material genético

2. Para conseguir entrar na CD4, o HIV se junta a receptores na superfície da célula. O mais comum é o CCR5. Pessoas que têm duas cópias mutantes do alelo CCR5 são resistentes à variante HIV-1 do vírus. Sem “permissão” do receptor, o vírus não entra na célula e, portanto, não as infecta

3. O paciente de Londres foi diagnosticado em 2012 com linfoma de Hodgkin avançado. Trata-se de um câncer do sistema linfático. Para tratar a doença, ele foi submetido a quimioterapia e, em 2016, a um transplante de células-tronco hematopoiéticas (precursoras das células sanguíneas). O doador tinha duas cópias mutantes do CCR5

4. Além de destruir as células cancerosas, a quimioterapia ajudou a matar as células do HIV que se dividiam

5. Com o transplante, as novas células do paciente começaram a nascer com a variação do doador. Dessa forma, elas não expressam o receptor CCR5, impedindo que o HIV consiga adentrá-las

6. O paciente de Londres está há 18 meses em remissão e as células do seu sistema imunológico continuam não expressando o receptor CCR5.

Com informações do Correio Braziliense – Foto:Ilustrativa-Internet

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