ASSARÉ. Morre a artesã assareense Francisca de Brito Carvalho, esposa do mestre da cultura Espedito Seleiro

Ela estava hospitalizada há 15 dias e faleceu com insuficiência respiratória. Um exame inicial deu negativo para Covid-19. Família aguarda resultado do segundo teste. Foto: Allan Bastos

Depois de seis décadas de união, o casal de artesãos cearenses Francisca de Brito Carvalho e Espedito Seleiro, teve a separação inevitável na última quinta-feira (9). A matriarca da família de seleiros faleceu com insuficiência respiratória, após 15 dias hospitalizada na Região do Cariri. Um exame inicial já havia dado negativo para Covid-19, e os familiares aguardam o resultado de um segundo teste.

Dona Francisca sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) há seis anos e, desde então, convivia com movimentos reduzidos, além de alguns problemas na garganta, no pulmão e, mais recentemente, no coração. Em suas últimas semanas de vida, passou oito dias em leitos de UTI e apenas um em casa, o domingo (5).

Seu enterro aconteceu de forma breve, ainda na manhã desta sexta-feira (10), às 9h, no cemitério de Nova Olinda, no Cariri, seguindo os protocolos determinados pela Justiça do Ceará no período da pandemia. Espedito Seleiro não esteve presente. Ainda na noite de quinta (9), o artesão se despediu da esposa. “Ele tinha certeza que era a última vez que ia vê-la. Ficou muito debilitado, está chorando muito, e não aguentou ir para o cemitério”, disse Irenilda Carvalho, nora do casal, e esposa de Maninho Seleiro.

Dona Francisca casou com o mestre do couro na década de 1960 e teve nove filhos com ele. Desses, sobreviveram seis herdeiros. O casal já soma cinco netos, incluindo dois adultos, que atuam no mesmo ofício. “Ela trabalhou todo tempo, sabia fazer só tudo, foi quem deu o pontapé junto com Espedito nos negócios da família. Enfrentou todas as dificuldades, cresceu junto com ele, que era meio danado. Ela foi a força maior de tudo”, reconhece Irenilda, emocionada.

A fortaleza de dona Francisca ficou registrada no livro “Mãos que fazem história – a vida e a obra de artesãs cearenses”, publicado pelo Diário do Nordeste, em 2012, com autoria das jornalistas Germana Cabral e Cristina Pioner. De pés sempre calçados com a sandália de couro que deu fama ao companheiro, ela abria caminhos e servia-lhe de fonte de inspiração. “Seu Espedito sentia um amor imenso por Dona Francisca, tinha muito cuidado nela, e ela nele também”, reforça Irenilda.

Memória
Quando Francisca conheceu Espedito, o artesão tinha acabado de retornar de São Paulo, onde passou uma temporada de dois anos trabalhando em cafezais. “Eu nunca pensei na vida em me casar com ninguém, porque pra mim, casamento era uma coisa que não era legal. Eu tinha minhas namoradas, mas não pensava em casar não, só brincar, né, conversar e tal, bater um papo. Aí foi quando eu conheci ela, a primeira vez que eu vi ela, passou assim…Fiquei olhando assim, e digo, eita menina bonita da peste! Aí foi que comecemos a se encontrar”, lembrou Espedito, na ocasião de seus 80 anos, comemorados em outubro de 2019. Um mês antes, o mestre foi agraciado com o prêmio Sereia de Ouro, em sua 47ª edição, concedida pelo Sistema Verdes Mares.

Em seu ateliê, ponto turístico famoso na pequena Nova Olinda, os dois criaram inúmeros acessórios, vestimentas e mobiliários em couro. Em 2008, o artesão recebeu o título de Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará, concedido pelo Governo do Estado e, em 2001, a Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República do Brasil.

Na trajetória bem-sucedida, sempre ao lado da esposa, ele realizou exposições nas cidades de Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro e Londres. É ainda protagonista de documentários, teses de mestrado, livros e cordéis. Novelas e filmes incluíram suas peças no figurino e, em parcerias com grifes nacionais, apresentou coleções nas principais passarelas de moda do Brasil: São Paulo Fashion Week, Fashion Rio e Dragão Fashion Brasil.

O amor que alavancou essa trajetória também foi destacado nas palavras da própria Francisca, no aniversário de 80 anos do companheiro. “Eu gosto é de tudo nele. Sou feliz, graças a Deus, graças a Deus! Eu acho bom demais, família tudo unida, tudo em casa, tudo gosta do trabalho, tudim. A nora que entrou gosta também, e assim vamos, até o dia que Deus quiser”, declarou.

*G1 CE

Leia também



Multiservice - Fauston
Top Móveis_Crato Janeiro 2020

Enquete

Você acha que motoristas alcoolizados devem ser considerados criminosos?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...
© Copyright 2019 — Caririceara.com. Todos os direitos reservados